Dois irm os MILTON HATOUM Carlos Drummond de Andrade

Dois Irm Os Milton Hatoum Carlos Drummond De Andrade-Free PDF

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Quando Yaqub chegou do L bano o pai foi busc lo, no Rio de Janeiro O cais Pharoux estava apinhado de pa. rentes de pracinhas e oficiais que regressavam da It lia. Bandeiras brasileiras enfeitavam o balc o e a varanda dos. apartamentos da Gl ria roj es espocavam no c u e para. onde o pai olhava havia sinais de vit ria Ele avistou o. filho no portal do navio que acabara de chegar de Marse. lha N o era mais o menino mas o rapaz que passara cinco. dos seus dezoito anos no sul do L bano O andar era o mes. mo passos r pidos e firmes que davam ao corpo um senso. de equil brio e uma rigidez impens vel no andar do outro. filho o Ca ula,Yaqub havia esticado alguns palmos E medida que. se aproximava do cais o pai comparava o corpo do filho. rec m chegado com a imagem que constru ra durante os. anos da separa o Ele carregava um farnel de lona cinza. surrado e debaixo do bon verde os olhos gra dos arrega. laram com os vivas e a choradeira dos militares da For a. Expedicion ria Brasileira,Halim acenou com as duas m os mas o filho demorou. a reconhecer aquele homem vestido de branco um pouco. mais baixo do que ele Por pouco n o esquecera o rosto do. pai os olhos do pai e o pai por inteiro Apreensivo ele se. aproximou do mo o os dois se entreolharam e ele o filho. perguntou Baba E depois os quatro beijos no rosto o. abra o demorado as sauda es em rabe Sa ram do cais. abra ados atravessaram a pra a Paris e a rua do Catete e. foram at a Cinel ndia O filho falou da viagem e o pai la. mentou a pen ria em Manaus a pen ria e a fome durante. os anos da guerra Na Cinel ndia sentaram se mesa de. um bar e no meio do burburinho Yaqub abriu o farnel e. tirou um embrulho e o pai viu p es embolorados e uma. caixa de figos secos S isso trouxera do L bano Nenhuma. carta Nenhum presente N o n o hav a mais nada no far. nel nem roupa nem presente nada Ent o Yaqub explicou. em rabe que o tio o irm o do pai n o queria que ele vol. tasse para o Brasil,Calou Halim baixou a cabe a pensou em falar do. outro filho hesitou Disse Ttia m e e tamb m calou, Viu o rosto crispado de Yaqub viu o filho levantar se aper.
reado arriar a cal a e mijar de frente para a parede do bar. em plena Cinel ndia Mijou durante uns minutos o rosto. agora aliviado indiferente s gargalhadas dos que pas. savam por ali Halim ainda gritou N o tu n o deves fazer. isso mas o filho n o entendeu ou fingiu n o entender. o pedido do pai, Ele teve que engolir o vexame Esse e outros de Yaqub. e tamb m do outro filho Omar o Ca ula o g meo que, nascera poucos minutos depois O que mais preocupava. Halim era a separa o dos g meos porque nunca se sabe. como v o reagir depois Ele nunca deixou de pensar no. reencontro dos filhos no conv vio ap s a longa separa o. Desde o dia da partida Zana n o parou de repetir Meu. filho vai voltar um matuto um pastor um ra Vai esque. cer o portugu s e n o vai pisar em escola porque n o tem. escola l na aldeia da tua fam lia,Aconteceu um ano antes da Segunda Guerra quando. os g meos completaram treze anos de idade Halim queria. mandar os dois para o sul do L bano Zana relutou e con. seguiu persuadir o marido a mandar apenas Yaqub Duran. te anos Omar foi tratado como filho nico o nico menino. No centro do Rio Halim comprou roupas e um par de, sapatos para Yaqub Na viagem de volta a Manaus fez um. longo serm o sobre educa o dom stica que n o se deve. m jar na rua nem comer como uma anta nem cuspir no. ch o e Yaqub sim Baba a cabe a baixa vomitando quando. o bimotor chacoalhava os olhos fundos no rosto p lido a. express o de p nico toda vez que o avi o decolava ou ater. rissava nas seis escalas entre o Rio de Janeiro e Manaus. Zana os esperava no aeroporto desde o come o da tar. de Ela estacionou o Land Rover verde foi at a varanda e. ficou olhando para o leste Quando viu o bimotor prateado. aproximar se da cabeceira da pista desceu correndo atra. vessou a sala de desembarque subornou um funcion rio. caminhou altiva at o avi o subiu a escada e irrompeu na. cabine Levava um buqu de helic neas que deixou cair ao. abra ar o filho ainda l vido de pavor dizendo lhe Meu. querido meus olhos minha vida chorando Por que tan. ta demora O que fizeram contigo beijando lhe o rosto o. pesco o a cabe a sob o olhar incr dulo de tripulantes e. passageiros at que Halim disse Chega Agora vamos des. cer o Yaqub n o parou de provocar s faltou p r as tripas. para fora Mas ela n o cessou os afagos e saiu do avi o. abra ada ao filho e assim desceu a escada e caminhou at. a sala de desembarque radiante cheia de si como se enfim. tivesse reconquistado uma parte de sua pr pria vida o g. meo que se ausentara por capricho ou teimosia de Halim. E ela permitira por alguma raz o incompreens vel por al. guma coisa que parecia insensatez ou paix o devo o cega. e irrefre vel ou tudo isso junto e que ela n o quis ou nun. ca soube nomear, Agora ele estava de volta um rapaz t o vistoso e alto.
quanto O outro filho o Ca ula Tinham o mesmo rosto an. guloso os mesmos olhos castanhos e gra dos o mesmo. cabelo ondulado e preto a mesm ssima altura Yaqub dava. um suspiro depois do riso igualzinho ao outro A dist ncia. n o dissipara certos tiques e atitudes comuns mas a sepa. ra o fizera Yaqub esquecer certas palavras da l ngua por. tuguesa Ele falava pouco pronunciando monoss labos. ou frases curtas calava quando podia e s vezes quando. Zana logo percebeu Via o filho sorrir suspirar e evitar. as palavras como se um sil ncio paralisante o envolvesse. No caminho do aeroporto para casa Yaqub reconhe, ceu um peda o da inf ncia vivida em Manaus se emocio. nou com a vis o dos barcos coloridos atracados s margens. dos igarap s por onde ele o irm o e o pai haviam navegado. numa canoa coberta de palha Yaqub olhou para o pai e. apenas balbuciou sons embaralhados,O que aconteceu perguntou Zana Arrancaram a. tua l ngua,La n o mama disse ele sem tirar os olhos da paisa. gem da inf ncia de alguma coisa interrompida antes do. tempo bruscamente, Os barcos a correria na praia quando o rio secava os. passeios at o Careiro no outro lado do rio Negro de on. de voltavam com cestas cheias de frutas e peixes Ele e o. irm o entravam correndo na casa ziguezagueavam pelo. quintal ca avam calangos com uma baladeira Quando, chovia os dois trepavam na seringueira do quintal da casa.
e o Ca ula trepava mais alto se arriscava mangava do ir. m o que se equilibrava no meio da rvore escondido na. folhagem agarrado ao galho mais grosso tremendo de me. do temendo perder o equilbrio A voz de Omar o Ca ula. Daqui de cima eu posso enxergar tudo sobe sobe Yaqub. n o se mexia nem olhava para o alto descia com gestos. meticulosos e esperava o irm o sempre o esperava n o. gostava de ser repreendido sozinho Detestava os ralhos de. Zana quando fugiam nas manh s de chuva torrencial e o. Ca ula s de cal o enlameado se atirava no igarap per. to do pres dio Eles viam as m os e a silhueta dos detentos. e ele ouvia o irm o xingar e vaiar sem saber quem eram os. insultados se os detentos ou os curumins que ajudavam as. m es tias ou av s a retirar as roupas de um tran ado de. fios nas estacas das palafitas,N o f lego ele n o tinha para acompanhar o irm o. Nem coragem Sentia raiva de si pr prio e do outro quan. d via o bra o do Ca ula enroscado no pesco o de um curu. im do corti o que havia nos fundos da casa Sentia raiva. d sua impot ncia e tremia de medo acovardado ao ver o. a ula desafiar tr s ou quatro moleques parrudos ag en. tar o cerco e os socos deles e revidar com f ria e palavr es. Ydqub se escondia mas n o deixava de admirar a coragem. de Omar Queria brigar como ele sent r o rosto inchado o. gosto de sangue na boca a ard ncia no l bio estriado na. testa e na cabe a che a de calombos queria correr descal o. sem medo de queimar os p s nas ruas de macadame aque. cidas pelo sol forte da tarde e saltar para pegar a linha ou. a rabiola de um papagaio que planava lentamente em c r. cUlos solto no espa o O Ca ula tomava mpulso pulava. rdopiava no ar como um acrobata e ca a de p soltando. um grito de guerra e mostrando as m os estriadas Yaqub. recuava ao ver as m os do irm o cheias de sangue cor. tadas pelo vidro do cerol,Yaqub n o era esse acrobata n o lambuzava as m os. eom cerol mas bem que gostava de brincar e pular nos. bailes de Carnaval no sobrado de Sultana Benemou onde. o Ca ula ficava para a festa dos adultos e varava a noite. om os foli es Eles tinham treze anos e para Yaqub era. como se a inf ncia tivesse terminado no lt mo baile no. casar o dos Benemou Naquela noite ele nem sonhava que. dois meses depois ia se separar dos pais do pa s e dessa. paisagem que agora sentado no banco da frente do Land. Rover reanimava o rosto dele, O baile dos jovens havia come ado antes do anoitecer. s dez horas os adultos entraram fantas ados na sala do. casar o cantando pulando e enxotando a garotada Yaqub. quis ficar at meia noite porque uma sobrinha dos Reinoso. a menina aloirada corpo alto de mo a tamb m ia brincar. at a manh da Quarta Fe ra de Cinzas Seria a primeira. noite de L via na festa dos adultos a primeira noite que. ele Yaqub viu a com os l bios pintados os olhos contor. nados por linhas pretas as tran as salpicadas de lantejoulas. que br lhavam nos ombros bronzeados Queria ficar para. pular abra ado com ela sentir se quase adulto como ela. J pensava em se aprox mar de L via quando a voz de Zana. ordenou Leva tua irm para casa Podes voltar depois Ele. obedeceu Acompanhou R nia at o quarto esperou a dor. mir e voltou correndo ao casar o dos Benemou A sala fer. vilhava de foli es e no meio das tantas cores e das m sca. ras ele viu as tran as brilhantes e os l bios pintados e logo. ficou tr mulo ao reconhecer o cabelo e o rosto semelhan. tes ao dele pertinho do rosto que admirava,L via e o irm o dan avam num canto da sala Dan a. vam quietos enroscados movidos por um ritmo s deles. que n o era carnavalesco Quando os foli es esbarravam. no par os dois rostos se encontravam e a sim davam gar. galhadas de Carnaval Yaqub ensombreceu N o teve cora. gem de ir falar com ela Odiou o baile odiei as m sicas da. quela noite os mascarados e odiei a noite contou Yaqub. a Domingas na tarde da Quarta Feira de Cinzas Foi uma. noite insone Ele f ngia dormir quando o irm o entrou no. quarto dele naquela madrugada quando o som das mar. chinhas carnavalescas e a gritaria dos b bados enchiam a. atmosfera de Manaus De olhos fechados sentiu o cheiro de. Ian a perfume e suor o odor de dois corpos enla ados e. percebeu que o irm o estava sentado no assoalho e olhava. para ele Yaqub permaneceu quieto apreensivo derrota. do Notou o irm o sair lentamente do quarto o cabelo e a. camisa cheios de confete e serpentina o rosto sorridente e. cheio de prazer,Foi o seu ltimo baile Quer dizer a ltima manh em.
que viu o irm o chegar de uma noitada de arromba N o. entendia por que Zana n o ralhava com o Ca ula e n o en. tendeu por que ele e n o o irm o viajou para o L bano. dois meses depois, Agora o Land Rover contornava a pra a Nossa Senhora. dos Rem dios aproximava se da casa e ele n o queria se. lembrar do dia da partida Sozinho aos cuidados de uma. fam lia de amigos que ia viajar para o L bano Sim por que. ele e n o o Ca ula perguntava a si mesmo e as mangueiras. e oitizeiros sombreando a cal ada e essas nuvens imensas. inertes como uma pintura em fundo azulado o cheiro da. rua da inf ncia dos quintais da umidade amaz nica a vi. s o dos vizinhos debru ados nas janelas e a m e acarician. do lhe a nuca a voz d cil dizendo lhe Chegamos querido. a nossa casa,Zana desceu do jipe e procurou em v o Omar R nia. estava no alpendre alinhada perfumada,Ele chegou Meu irm o chegou Correu para a por. ta de onde avistou um rapaz t mido mais alto que o pai se. gurando o farnel surrado e agora olhando para ela com o. olhar de algu m que v pela primeira vez a mo a e n o a. menina mirrada que abra ara no cais do Manaus Harbour. Ele n o sabia o que dizer largou o farnel e abriu os bra os. para enla ar o corpo esbelto alongado por uma pose altiva. o queixo levemente empinado que lhe dava um ar auto. confiante e talvez antip tico ou alheio R nia hipnotizava. se com a presen a do irm o uma r plica quase perfeita do. outro sem ser o outro Ela o observava queria notar algu. ma coisa que o diferenciasse do Ca ula Olhou o de perto. de muito perto de v rios ngulos percebeu que a maior. diferen a estava no sil ncio do irm o rec m chegado No. entanto ela ouviu a voz agora grave perguntar Onde est. Domingas e viu o irm o caminhar at o quintal e abra. ar a mulher que o esperava Entraram no quartinho onde. Domingas e Yaqub haviam brincado Ele observou os dese. nhos de sua inf ncia colados na parede as casas os edif. cios e as pontes coloridas e viu o l pis de sua primeira ca. ligrafia e o caderno amarelado que Domingas guardara e. agora lhe entregava como se ela fosse sua m e e n o a em. Yaqub demorou no quintal depois visitou cada apo, sento reconheceu os m veis e objetos se emocionou ao en. trar sozinho no quarto onde dormira Na parede viu uma. fotografia ele e o irm o sentados no tronco de uma rvore. que cruzava um igarap ambos riam o Ca ula com esc r. nio os bra os soltos no ar Yaqub um riso contido as m os. agarradas no tronco e o olhar apreensivo nas guas escuras. De quando era aquela foto Tinha sido tirada um pouco. nesta casa e ai de quem duvidasse disso com uma palavra um gesto um olhar Ela imaginava o sof cinzento na sala onde Halim largava o narguil para abra la lembrava a voz do pai conversando com barqueiros e pescadores no Manaus Harbour e ali no alpendre lembrava a rede verme lha do Ca ula o cheiro dele o corpo que ela mesma despia na rede onde ele term inava suas noitadas

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